terça-feira, 6 de abril de 2010

Aline



Minha família é uma família de pessoas, não necessariamente de sangue.
Se formos olhar o sangue, na verdade, me botam fora dela: fui achada no lixo!


Cresci vendo meus pais se cuidando. Ele de olho nela, ela de olho nele. Sem ciúme, sem as cobranças bobas comuns das relações possessivas. Eles se amavam para além do homem e da mulher. Eram mais que isso: eram irmãos.

Aos meus 21 catei um bichinho doce e frágil, um coraçãozinho cansado, e levei pra casa. Era a Aninha.
E ela ainda é...
Aninha foi adotada. Virou a nº3!
A partir daí as coisas ficaram mais ou menos assim: Papai perdia os cabelos com Nana, que cuidava de mim, que cuidava da Aninha, que cuidava do Bruno, que aguentava a Mamma, que vivia reclamando que papai num tinha juízo!!! É... Mamma é difícil.

Aninha era a única que gostava e tinha paciência pra pescar. Babo adorava beber na beira do lago do Tilapão.
Aninha não pescava nada (muito ruim mesmo!!!) e Babo sempre se compadecia e mandava fritar um peixe porque ir pescar (?) e não comer o peixe não faz sentido.
Aninha era a única que dirigia e, por isso, sempre carregava papai para a roça. Papai tentava convencê-la a ir de bicicleta até o dia que ele caiu na real que, de cachaça, era melhor mesmo voltar de carro... kkkkkkkkk...
Bem, e enfim, deixei de ser o xodó do papai e Aninha tomou meu posto.

Um dia papai se foi. Ficamos eu, Nana, Mamma, Aninha e Bruno.
E achávamos que era assim, que a família havia diminuído irremediavelmente. Que o sangue dos Mattos não seria passado adiante e... dramááááááático!

Mas, Mamma também adotou alguém. Dessa vez com a ajuda da Nana.
E Mamma tá que engorda a Aline já que não consegue me engordar.
E Aline chama Mamma de mãe e até pede a bênção enquanto eu e Nana usamos o tradicional "fala véia!".
E Aline ajuda mamãe a dar conta da Nana que é difííííícil. E Mamma enche o ouvido da Aline de reclamações o dia todo... E a gente tenta fazer com que Aline não enlouqueça!

E lá se foi a Aline cair de amores por nós, e nós por ela.
E nos preocupamos com ela, e sabemos que ela se preocupa conosco.
E sentimos, como que sem explicação, um só sangue pulsar em nossas veias.
Somos irmãs. Somos uma família. E ela é a nº4.

E ontem Aline viu e ouviu isso. E ontem eu também pude ver nos olhos dela que ela via, ouvia e entendia. Nós vimos amor... E amor não acaba mesmo que as relações mudem. Aninha é prova viva disso.
A dor que senti quando coloquei Nana no ônibus - mesmo feliz por tê-la trazido - Aline compartilhou comigo. Assim, igualzinha.
Mas, nós duas sabíamos que estava tudo bem porque família não se vai quando nos afastamos fisicamente.
Família não vem apenas porque nos aproximamos fisicamente.
Família é. Família somos.

Um comentário:

Cris Mattos disse...

Relendo o post.
Saudades.