domingo, 27 de setembro de 2009

Narciso e o lago...

A primeira vez que me comparei à Narciso foi ao ler "O Alquimista"... lá pra quando eu era criança. Achei que Narciso estava certo em apaixonar-se loucamente por si e, no rastro de Narciso, segui minha vida... Até ali eu tinha sido CDF demais, apanhado na escola, falado as coisas que queriam ouvir de mim, aturado os comentários maldosos sobre minha pele e cabelinhos de miojo. Eu precisava mudar. Eu mudei.

Ao contrário de todos que se estapeavam por uma vaga no Estadual, fui para uma escola distante. Mudei o corte de cabelo (na verdade, estreei um!), pintei as unhas, admiti que gostava de rock, rock de verdade, descobri que não gostava de bebidas alcóolicas em geral, mas curtia muito uma cerveja. E, vamos falar sério??? Eu não sou e nem nunca fui CDF (ou Caxias!) o diabo é que gosto mesmo de estudar... Fazer o quê? Assumi que gostava e parei de aturar as "piadinhas", tanto dos mais fracos, quanto daqueles que, diferente de mim, resolveram fazer todas as coisas estúpidas do mundo para serem considerados populares.

Comecei a trabalhar e, como não tivesse que gastar meu dinheiro com os populares, pois era inteligente o suficiente para saber que isso não faria de mim um deles, guardei o que pude. Então, aprendi a cuidar de não dever e não fazer nada que fosse além das minhas possibilidades desde cedo. Assim, mesmo contra todas as expectativas, fiz faculdade e segui carreira. Hoje, louca e apaixonadamente, sou professora daquele mesmo curso que eu ouvi desde criança que não poderia cursar...

Bom, esse foi o presente de Narciso para mim!
Mas, agora, aos 30, e já sem meu melhor amigo, pareceu-me que os ensinamentos de Narciso tornaram-se irrelevantes. Já tenho tudo o que quero pois quero (com muito amor e orgulho) tudo o que tenho. Não preciso mais olhar só para mim, posso olhar para os lados.

Olhando pro lado, descobri o lago. Esse mesmo lago (cheio de gente, cores e sabores) que sempre enxerguei apenas como espelho. E vi que havia mais coisas para ver além da minha própria imagem refletida, além dos meus desejos e sonhos. Vi que já havia encerrado uma etapa importante e que precisava de outra, e outra, e outra... E agora, a primeira "outra" primeiro. Depois a segunda "outra". Mudança radical, inclusive aprendendo a fazer uma coisa de cada vez (oh, céus! como isso é difícil!)...

Agora, como lago, posso aprender a chorar perdas, a conversar com as Oréiades e, o mais importante, a contemplar minha beleza pelos olhos dos outros. E comecei, como lago, olhando pra mim. Olhando para outras coisas que não fosse a projeção que faço de mim... E, descobri que nunca, em verdade, havia olhado para mim. Ser Narciso prejudicara minha crítica, alterara minha percepção...

Mas, Narciso se foi e o que importa é que eu ainda estou aqui.
Despertando-me. Descobrindo-me. E, ainda que com novos olhos e novas atitudes, imensamente apaixonada por tudo o que tenho...


"O Alquimista pegou num livro que alguém na caravana tinha trazido. O volume estava sem capa, mas conseguiu identificar o seu autor: Oscar Wilde. Enquanto folheava as suas páginas, encontrou uma história sobre Narciso.
O Alquimista conhecia a lenda de Narciso, um belo rapaz que todos os dias ia contemplar a sua própria beleza num lago. Estava tão fascinado por si mesmo que certo dia caiu dentro do lago e morreu afogado.
No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que chamaram de narciso.
Mas não era assim que Oscar Wilde acabava a história. Ele dizia que quando Narciso morreu, vieram as Oréiades — deusas do bosque — e viram o lago transformado, de um lago de água doce, num cântaro de lágrimas salgadas.
— Por que choras? — perguntaram as Oréiades.
— Choro por Narciso — disse o lago.
— Ah, não nos espanta que chores por Narciso — continuaram elas.
— Afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo bosque, tu eras o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto a sua beleza.
— Mas Narciso era belo? — perguntou o lago.
Quem mais do que tu poderia saber disso? — responderam, surpresas, as Oréiades. — Afinal de contas, era nas tuas margens que ele se debruçava todos os dias.
O lago ficou algum tempo silencioso. Por fim, disse:
— Eu choro por Narciso, mas nunca tinha percebido que Narciso era belo.
»Choro por Narciso, porque todas as vezes que ele se debruçava sobre as minhas margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza reflectida.
– Que bela história – disse o Alquimista."
(COELHO, Paulo. O Alquimista. Coleção Paulo Coelho. São Paulo: Gold Editora)

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