segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Entre o cristão e o ateu.

Corujinha, não poderia deixar o hábito de trabalhar durante as madrugadas.
Ontem, ainda que atraída por um filme sobre uma dona intrigante, não pude deixar de cutucar meu fiel companheiro, o controle remoto.

Zapeando pelos canais, eis que descubro, na Globo, um filme que já vi e revi, e que ainda me chama a atenção: Cidade de Deus.

Não sei se porque o lugar me reporta algo de infância... (passei meus primeiros anos de vida em uma favela-baixa como aquela, no Rio de Janeiro).
Ou se porque as locações do filme exibem um preconceito interessante: nem toda favela fica em morro, nem todo local plano é seguro...
Ou se porque, apesar de ter ficado triste com minha mãe durante anos por ter-me tirado a possibilidade de estudar na UERJ, hoje só tenho a agradecer.

Não gosto de Governador Valadares.
Na primeira oportunidade, fui de lá para BH.
Na segunda, vim para Vitória e aqui me fixei.
Mas, tenho que reconhecer que ter sido criada nas ruas calmas de Valadares foi de importância ímpar para meu crescimento, ainda que eu apanhasse na escola.

Bem, este post não é sobre uma cidade, ou sobre minha mãe, ou sobre minha vida acadêmica.

Este post é sobre Deus.
Geralmente, deixo o tema 'Deus' para minhas aulas de Filosofia e confesso que, neste semestre passado, ele foi muito 'incomodado' em sala: uma turminha de calouros muito motivada conseguiu diferenciar bem o Divino do religioso. As aulas foram maravilhosas...

Voltando a Deus e ao Cidade de Deus, gostaria de dizer que, ontem, revi uma cena que não havia, antes, percebido.

Armas de grosso calibre em punho, corpos suados da correria pela favela atrás dos rivais, o grupo do Zé Pequeno se juntou e orou. Em círculo, como eu costumava ver nos grupos de teatro, eles rezaram o 'Pai Nosso' pedindo a Deus força para aniquilar os inimigos e tomar a 'boca' do Cenoura.

Daí em diante, confesso que não vi mais nada até que o intervalo me acordasse do transe: Eles matavam, roubavam, estupravam, aliciavam crianças, destruíam famílias pelas perdas e pelas drogas e, ainda assim, acreditavam em Deus.

Bem, acreditar talvez não seja a melhor palavra...
Mas, o fato é que, numa entrevista de emprego, aquele traficante (uma vez travestido de bonzinho) que se dissesse temente a Deus, correria o risco de conseguir o posto, ao passo que um pai de família, responsável, educado e respeitador que se dissesse ateu, correria o mesmo risco de ser sumariamente desclassificado.

Fiquei pensando no quanto somos fúteis e ignorantes.
Fúteis por valorizarmos mais o que se diz do que o que se faz, exatamente em contraponto ao que se extrai da própria Bíblia.
Ignorantes por preferirmos nos apegar a aparências do que buscar os fatos.

De 10 pessoas que conheço e que se dizem tementes a Deus, uma é realmente cristã.
Mas, todos os ateus que conheço são retos e justos.
(Preciso dizer que não conheço tantos que se dizem ateus quanto que se dizem cristãos e que conheço muitos que não dizem nada para não se comprometerem com a língua das pessoas...)

É o velho preconceito.

Quem não entende que cor não representa caráter vai pensar que todo preto é ladrão e todo índio é preguiçoso.

Quem não entende que o que acontece entre quatro paredes não representa retidão, vai apontar todo e qualquer gay/lésbica como leviano.

Quem não entende o que se passa pelo coração de uma pessoa durante um culto não é capaz de respeitar a manifestação de crença.

Quem não entende que o fato de não crer na existência de Deus não torna ninguém, automaticamente, um pecador ou criminoso, não respeitará o ser humano que manifesta tal descrença.

Temos o hábito de rechaçar pessoas e coisas sem pensarmos a respeito daquilo que se apresenta diante de nossos olhos.
Na maioria das vezes, vejo pessoas dizendo "credo, fulano não acredita em Deus!" como quem diz "não gosto de pêra, nunca comi". Fico imaginando o que se passa pela cabeça de tais pessoas, se é que passa...

Será que uma pessoa que se sente mal na companhia de um ateu já parou para pensar que, talvez, ele represente uma 'ameaça' muito menor do que aquele que se diz cristão?

Será todos os que se dizem cristãos entendem que a atitude de "credo!" não é uma atitude cristã?

Para mim, sinceramente, mais vale um ateu à mesa do que um crente* com AR-15 na mão.
"Não amemos de palavras nem de línguamas por ações e em verdade"(1Jo 3, 17-18)

{Gostaria de dizer que tenho alunos, amigos e familiares Testemunhas, Adventistas, Quadrangulares, Católicos-de-verdade (e não somente aqueles que só fazem número para o IBGE), Budistas, Espíritas... e que reconheço, em muitos, aquilo que entendo como cristandade. Este post, portanto, não se direciona a eles.}

* Emprego a palavra em seu significado mais simples, ou seja, "aquele que crê", e não como 'sinônimo' de "evangélico", estes que reconheço e respeito muito.

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4 comentários:

Bixudipé disse...

"Não amemos de palavras nem de língua, mas por ações e em verdade"(1Jo 3, 17-18)

Adorei o seu texto: foi, perfeitamente, imparcial e coerente.

Abração.

Rodolfo Pagoto Roldi disse...

Oi, "minha" sempre professora Cris! Quanta saudade de você... Você nem pode imaginar como fiquei feliz ao me deparar com o seu comentário lá no meu blog... ganhei minha semana!
Sinto falta das suas aulas-camaleônicas (elas sempre têm um "quê" de inovação constante...)
Toda vez que eu passo na biblioteca, lembro daquela sua primeira aula, levando todo mundo pra encontrar a doutrina que melhor "conversasse" com a gente =DD E dá uma nostalgia, uma vontade de voltar no tempo...

A gente só sente saudade do que foi bom, né? *-*
Aquele semestre foi incríveel!

Também não poderia deixar de comentar sobre o texto... LINDO! Real, triste (ao constatar que é isso que acontece mesmo), lúcido. Vou imprimir e guardar, pode? :)


Beijo!

Cris Mattos disse...

Menino do meu coração... pode! sempre!

Abraços e meu carinho cheio de saudades!
Cris.

Sandreli disse...

Cris, adorei seu texto.
Perfeito! Super coerente.